O espírito de Brasília

Todos os dias, às cinco da manhã, o som começa baixinho:

– Nhi. Nhi. Nhinhinhinhinhi. Nhi. Nhi.

Muitos não sabem de onde ele vem. Alguns cogitaram ser um pássaro que pousava no concreto quente da praça, mas não havia vida em frente ao Museu Nacional; apenas alguns pedestres apressados. Uma senhora aperta o passo, abraçada à bolsa, sem entender de onde aquele som triste vinha. Os seguranças do Museu se entreolham sem trocar uma palavra, ao mesmo tempo apreensivos e entediados.

– Nhi. Nhi. Nhinhinhinhinhi. Nhi. Nhi.

O gemido continua até às oito da manhã, quando o som é sufocado pelo barulho dos ônibus e a fumaça dos carros. Ninguém se importa, o objetivo de todos é chegar ao trabalho. O som desaparece, como se soubesse que é ignorado por todos e desistisse de seu apelo constante.

O silêncio, porém, não é definitivo. No dia seguinte, no mesmo horário, o gemido recomeça.

– Nhi. Nhi. Nhinhinhinhinhi. Nhi. Nhi.

Estou em frente à cruz, de pé no deserto de concreto em pleno sol de meio dia. Olho para o Museu e para a Biblioteca Nacional, balanço a cabeça e suspiro. Digo ao gemido “Tenha esperança, meu caro”, e percebo os olhares arregadalados de uma mulher que vem em minha direção. Se é possível saber seu trabalho pela roupa de alguém, diria que é uma estudante de arquitetura.

– Você ouviu, não foi?

– Como?

– O som. O gemido. É baixinho, quase não dá para ouvir por causa dos carros. Mas existe.

– Sim, eu ouvi.

– Eu sabia que não estava louca! Meus amigos acharam que era bobagem, mas eu sabia que tinha ouvido.

Acenei com a cabeça e olhei em silêncio para a cruz. A mulher me pergunta:

– O que é?

Encarei seus olhos emoldurados pelos óculos de aro preto. Seus cabelos bagunçados pelo vento estão presos por um grampo decorado com uma rosa de pano. Ela insiste:

– O que é? Por favor, me diga.

– Você quer mesmo saber?

Ela respira fundo e faz que sim com a cabeça. Eu continuo:

– Poucas pessoas sabem, mas foi aqui que enterraram o bom senso do Oscar Niemeyer. Ele geme todos os dias, desesperado, pedindo para sair debaixo das toneladas de concreto. Mas não vai sair. Sei que não vai. Ninguém vai tirar todo esse concreto daqui para ele sair. E por isso a maioria prefere fingir que não o ouve. O que posso fazer é vir aqui todos os dias e dizer que estou aqui, ouvindo. Dar um pouco de esperança.

Ela olha para a cruz com os olhos cheios de lágrimas, completamente muda. Pronto para ir embora, coloco minha mão sobre seu ombro e digo:

– Era difícil achar esperança. Mas como você também parou para se importar, talvez ela exista.

O sol está forte, o concreto irradia o calor. E enquanto me afasto sobre duas rodas ouço alguns soluços vindos da mulher, que se ajoelhou para deixar a flor sob a cruz.