O que é arte, II

Arte é fenômeno, não coisa. É o momento onde um artefato produzido por um ser humano com a intenção de afetar o espectador causa nele alguma uma alteração. É mais profundo do que olhar para uma pintura e dizer “que legal” ou “que feio”. É uma mudança de percepção qualquer.

Assim, arte não “existe”, mas “acontece”. Se você olha uma escultura, por exemplo, e aquilo te toca de algum modo ou muda seu modo de pensar, “aconteceu arte”. Se não, é apenas uma escultura, não um objeto de arte. Corolário: O que é arte para uma pessoa pode não ser para outra.

Admirável mundo novo

Tampões de ouvido de poliuretano. A descoberta deles na farmácia foi o melhor acontecimento desde o enforcamento de bêbados arruaceiros na praça de São Petesburgo em 1963, condenados à morte por gritarem frases como “Timãããããão, timãããããão!” e “Silêncio de cu é rola!” às duas da manhã de uma quarta-feira. A luta entre boêmios e policiais durou trinta minutos, sendo os criminosos arrastados para o campo de execução sob aplausos e gritos de felicidade dos moradores vizinhos ao bar. Lembrado como a Batalha de Peckersville, os bravos soldados são saudados pelos moradores todos os anos e homenageados com um desfile ao ar livre.

Policiais atrás de um dos fugitivos

 

O Sr. Foster

Dois tipos de textos são igualmente tristes de serem lidos: textos feitos no primeiro dia de abril e textos sobre sonhos, em qualquer dia. Os do primeiro tipo são idiotas, usam sempre a mesma fórmula de falar que aquilo que você odiava a vida inteira agora é a razão de sua vida. Os do segundo são chatos, e ninguém tem interesse de ler sobre os sonhos dos outros. Mas vou violar todas as regras de bom senso e bom gosto ao falar das duas coisas ao mesmo tempo, já que minha cabeça me pregou uma peça no primeiro de abril em sonho. E também para passar o tempo, que que tem? Esse blogue é meu mesmo, então toma um pirulito e senta aí. Vai ser divertido.

Sonhei que estava no trabalho, sentado em frente ao computador. Ao lado passavam pessoas vendendo coisas: sabonetes, caixinhas de jóias, bijuterias, quinquilharias. Nada demais, até porque isso acontece mesmo quando estou lá. A diferença era o Sr. Foster. Um homem bem arrumado, de terno e chapéu, que chegou perto de mim mesa com sua tradicional educação. “Bom dia, meu jovem. Como posso ajudá-lo hoje?”, ele dizia, estendendo com a mão esquerda um catálogo em preto e branco meio amarelado e amassado.

Eu conhecia o Sr. Foster. Antigo campeão da volta da França, tinha vindo para o Brasil pedalando pelo Oceano Atlântico. Quando perguntado sobre o feito a resposta era sempre a mesma:

– Disciplina, meu jovem. Muita disciplina.

Sr. Foster, recém chegado ao Brasil
O Sr. Foster se estabeleceu aqui vendendo bicicletas. Era apaixonado por elas, e as vendia a preços ridiculamente baixos porque era rico e não precisava de dinheiro. Seu objetivo na vida era fazer com que todos tivessem o bom gosto de ter uma bicicleta bonita, não “esses esqueletos vergonhosos que se vê por aí”. Odiava as mountain bikes, pois, segundo ele, um cavalheiro jamais ousaria sujar seu terno na lama, e tinha especial interesse em bicicletas das décadas de 50 e 80. Enquanto contava seus momentos de glória e narrava suas novas aquisições, eu folheava com atenção as páginas do catálogo. Ele se orgulhava de me ter como cliente regular, assim como de todos os seus clientes.

Parei na página 52.

– Elas já chegaram?

– Sim, meu jovem. É o único exemplar, e por um acaso está aqui. Interessado?

– Mas claro! Quanto?

– Cem reais.

Entreguei o dinheiro, que o sr. Foster guardou cuidadosamente no bolso da calça. Do paletó ele tira uma Bianchi verde, brilhando de tão nova, e me entrega dizendo “aqui está, por que não dá uma volta?”. Subi na bicicleta e comecei a pedalar ali mesmo, entre as mesas, o que todos acharam muito natural.

Oh, my!Aí acordei. E tenho certeza de ter ouvido alguém falando “Hah-haw” quando percebi que era tudo um sonho.