Too much monkey business

Esqueci de apertar o botão de pausa.

Ao me ver no meio de um turbilhão que envolve bicicletas, desenhos anatômicos, a perspectiva de uma formatura e um pacote furado que parece estar cheio de pudim de chocolate, resolvi tirar férias desse blogue por algumas semanas para reorganizar as idéias e limpar o tapete. O descanso dura até 30 de setembro, e enquanto isso vou cuspindo alguns tweets amarelos no chão para achar o caminho de volta.

 

Mas afinal…

…o que dá para fazer com cinquenta reais dum vale-cultura? Talvez seja uma tentativa torpe do Governo de socialização em uma comunidade. As pessoas de um vilarejo podem se reunir para dividir o valor de um ingresso do Cirque du Soleil e mandar o Joãozinho com a mãe para o espetáculo, já que ele viu Billy Elliot e agora fica pulando pelas ruas do povoado socando os barracos e gritando “Sou um cisne, um cisne!”, e uma viagem do menino a São Paulo ao menos daria alguma tranquilidade aos moradores.

Pretensioso sim, que que tem?

Você tem que ser pretensioso. Todos os grandes são pretensiosos. Pretensão é bom, deixa o cara se dedicar à música que pretende ser a melhor de sua vida. Ou ao desenho que vai revolucionar os desenhos. Na pior das hipóteses ele não consegue nada disso e ganha experiência.

É comum para artistas ou esportistas ou qualquer pessoa mais dedicada ser um pouquinho só pretensiosa. Da Vinci era o mais pretensioso de todos, estudou muito e criou várias máquinas que revolucionariam o mundo se fossem construídas. Pena que sofria de déficit de atenção e abandonava os projetos pela metade, mas enfim. Lance Armstrong é um ciclista que ficou quatro anos sem competir e voltou a pedalar querendo ganhar de cara a Volta da França. Não conseguiu, mas chegou perto.

Acho que foi Kerouac que disse algo como “aqueles que querem mudar o mundo são aqueles que o mudam”. É um bom modo de se viver, achar que pode mudar o mundo. Faz você acordar mais disposto pela manhã e a se dedicar com mais felicidade ao trabalho. E acho que quem não é pretensioso não tem objetivo na vida, pensa que o que faz está bom demais e desdenha do maluco que passa quatro horas por dia em cima de uma mesa de desenho treinando o sombreado em vez de assistir o Domingão.

Então é isso, seja pretensioso. É bom para a pele e fortalece os folículos capilares.

Tatsutenkpenkpúgui!

Sei que me acho o ápice do cool hoje, mas quando tiver filhos com certeza as coisas que gosto vão ser encaradas com aquele típico desdém adolescente. Vão olhar para um Francis Bacon e dizer “Pô, que palha”.

Por isso vou aprender a jogar os novos jogos para embaraçá-los de propósito. Quando eles estiverem reunidos com os amiguinhos jogando Street Fighter XVIII, vou participar gritando gírias de antigamente.

– Olha só o chocão. Pimba! Viu só?

– Pô, pai, cê me mata de vergonha…

 



“Para com isso e devolve o motor do carro!”, disse Angela. Jeff, feliz da vida com o projeto, não ligou. “Isso é ciência, mulher!”

 

O espírito de Brasília

Todos os dias, às cinco da manhã, o som começa baixinho:

– Nhi. Nhi. Nhinhinhinhinhi. Nhi. Nhi.

Muitos não sabem de onde ele vem. Alguns cogitaram ser um pássaro que pousava no concreto quente da praça, mas não havia vida em frente ao Museu Nacional; apenas alguns pedestres apressados. Uma senhora aperta o passo, abraçada à bolsa, sem entender de onde aquele som triste vinha. Os seguranças do Museu se entreolham sem trocar uma palavra, ao mesmo tempo apreensivos e entediados.

– Nhi. Nhi. Nhinhinhinhinhi. Nhi. Nhi.

O gemido continua até às oito da manhã, quando o som é sufocado pelo barulho dos ônibus e a fumaça dos carros. Ninguém se importa, o objetivo de todos é chegar ao trabalho. O som desaparece, como se soubesse que é ignorado por todos e desistisse de seu apelo constante.

O silêncio, porém, não é definitivo. No dia seguinte, no mesmo horário, o gemido recomeça.

– Nhi. Nhi. Nhinhinhinhinhi. Nhi. Nhi.

Estou em frente à cruz, de pé no deserto de concreto em pleno sol de meio dia. Olho para o Museu e para a Biblioteca Nacional, balanço a cabeça e suspiro. Digo ao gemido “Tenha esperança, meu caro”, e percebo os olhares arregadalados de uma mulher que vem em minha direção. Se é possível saber seu trabalho pela roupa de alguém, diria que é uma estudante de arquitetura.

– Você ouviu, não foi?

– Como?

– O som. O gemido. É baixinho, quase não dá para ouvir por causa dos carros. Mas existe.

– Sim, eu ouvi.

– Eu sabia que não estava louca! Meus amigos acharam que era bobagem, mas eu sabia que tinha ouvido.

Acenei com a cabeça e olhei em silêncio para a cruz. A mulher me pergunta:

– O que é?

Encarei seus olhos emoldurados pelos óculos de aro preto. Seus cabelos bagunçados pelo vento estão presos por um grampo decorado com uma rosa de pano. Ela insiste:

– O que é? Por favor, me diga.

– Você quer mesmo saber?

Ela respira fundo e faz que sim com a cabeça. Eu continuo:

– Poucas pessoas sabem, mas foi aqui que enterraram o bom senso do Oscar Niemeyer. Ele geme todos os dias, desesperado, pedindo para sair debaixo das toneladas de concreto. Mas não vai sair. Sei que não vai. Ninguém vai tirar todo esse concreto daqui para ele sair. E por isso a maioria prefere fingir que não o ouve. O que posso fazer é vir aqui todos os dias e dizer que estou aqui, ouvindo. Dar um pouco de esperança.

Ela olha para a cruz com os olhos cheios de lágrimas, completamente muda. Pronto para ir embora, coloco minha mão sobre seu ombro e digo:

– Era difícil achar esperança. Mas como você também parou para se importar, talvez ela exista.

O sol está forte, o concreto irradia o calor. E enquanto me afasto sobre duas rodas ouço alguns soluços vindos da mulher, que se ajoelhou para deixar a flor sob a cruz.

O que é dor, I

É aquilo que se sente quando não se consegue controlar a bicicleta em uma curva e voa de lado para o chão, deixando as peças do ombro e a pele do joelho em algum lugar da rua.

 

O que é arte, III

Arte é um koan. É um entendimento para além das palavras, uma sensação impossível de ser descrita e experimentada por outro modo que não seja você em frente a uma obra de arte. Fotografias e reproduções dão uma uma leve idéia do que a obra é, e alguns artistas espetaculares conseguem manter parte dessa força mesmo nesse meio. Porém, estar ali, diante de, digamos, um quadro de três metros de altura presente em toda sua grandiosidade, é algo que faz você surtar.