• reflexões

    Lembrete amigável

    Não é porque eu escrevo sobre alguma coisa que eu estou vivendo aquela coisa, nem porque eu postei algo nas redes sociais que tudo na minha vida se resume àquilo, nem o fato de alguém dar likes significar que eu vivo com essa pessoa 24 horas por dia. Essa distância e falta de interação ao vivo que a internet causa leva as pessoas a escrutinizar a areia da pulga de informação que pegam e criar mil e uma histórias a partir dali, tirando elas mesmas todas as conclusões possíveis e imagináveis, e, pior, ficando com raiva ou medo da própria fantasia que criaram. É por essas e outras que eu me arrependo de sequer mexer em redes sociais, todo mundo surta por bobagem.

    Quer saber como estou e o que faço da vida? Liga ou manda mensagem. Ou entra aqui e me chama se não tiver meu número nem e-mail. É mais legal e vai estressar menos, pode confiar.

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    Ambicioso sim, que que tem?

    Você tem que ser ambicioso. Todos os grandes são ambiciosos. Ambição é bom, deixa o cara se dedicar à música que pretende ser a melhor de sua vida. Ou ao desenho que vai revolucionar os desenhos. Na pior das hipóteses ele não consegue nada disso e ganha experiência. Ou arruina sua vida e a da família por gerações. Detalhes, detalhes.

    É comum para artistas ou esportistas ou qualquer pessoa mais dedicada ser um pouquinho só ambicioso. Da Vinci era o mais ambicioso de todos, estudou muito e criou várias máquinas que revolucionariam o mundo se fossem construídas. Ou se funcionassem. Tipo aquele helicóptero, que parece um macarrão fusili.

    Acho que foi Kerouac que disse algo como “aqueles que querem mudar o mundo são aqueles que o mudam”. É um bom modo de se viver, achar que pode mudar o mundo. Faz você acordar mais disposto pela manhã e a se dedicar com mais felicidade ao trabalho. E acho que quem não é ambicioso não tem objetivo na vida, pensa que o que faz já está bom demais, e desdenha do maluco que passa quatro horas por dia em cima de uma mesa de desenho treinando o traço em vez de assistir o Domingão.

    Então é isso, seja ambicioso. É bom para a pele e fortalece os folículos capilares.

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    O reconhecimento do âmago no Umano H-inumano

    Já teve paciência para ler um texto de exposição? Eu já. Por várias vezes me perguntei se aquele texto era mesmo daquela exposição. Já entrei na galeria todo animado atrás da coleção onde eu devia experenciar (sic) um retorno ao primitivismo humano, ao âmago do meu ser conflitando com minha infância, mas só vi umas latas de tinta riscadas por pregos, uns pedaços de madeira sujos de guache e uns soldadinhos de plástico colados no chão. Já pensei em abrir processo por propaganda enganosa mas só de pensar em ter que ouvir mais retórica do sujeito de boina e cavanhaque tive calafrios. Achei melhor fazer uma retirada honrosa e guardar o folder na lixeira.

    Repare como a qualidade do texto acaba sendo inversamente proporcional à qualidade da obra. Ou nem isso: a exposição pode até ser boa mas o texto promete tanto uma reação pluri-extática transcedental que fico decepcionado por sair da galeria sem meus orgasmos.

    O mesmo para justificativas de designers ao apresentarem suas novas marcas. Aqui o desenho remete aos valores fundamentais da empresa como seriedade e solidez, e passa um sentimento de alegria e receptividade tântrica exponencial a cada olhada. E ao olhar para o papel tudo que você consegue ver são dois traços azuis e uma curva suspeitamente parecida com a marca da Nike.

    Há alguma vergonha em admitir que a arte – e porque não o design – se dá às vezes por felicidade do acaso? Por um conhecimento acumulado por anos que simplesmente saiu na forma de uma obra de arte ou de uma marca interessante, e que você não tem a menor idéia de como isso foi feito mas apenas sabe que funciona? Parece que sim, porque as explicações são não apenas mais presentes e mais constantes, mas mais bizarras e esotéricas. Não basta ser bom, tem que parecer bom, como se cada linha fosse cuidadosamente pensada, cada rabisco estafantemente redesenhado, tudo para defender o valor do trabalho daquela famigerada frase que diz “ah, até eu faço”, mostrando as teorias de Arnheim/Balzac/Rubinho Barrichello para justificar o vidro de talco de dois metros de altura feito com celofane.

    Mas dada a qualidade (leia picaretagem) de uma leva enorme de artistas e designers, a quem vamos culpar?

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    Tédio

    Phaedrus, de Cy Twombly

    Não precisa recarregar a página, a imagem está aí. Aí em cima. Logo acima dessa linha. Viu agora? Esse espaço em branco*. É uma pintura de Cy Twombly. Sacou a profundidade? O conceito?

    Nem eu. E nem quero. A verdade é que hoje é legalzinho falar água para tudo, principalmente em arte. Meia dúzia de frases quase coerentes servem para explicar e validar qualquer coisa.

    – Prove!

    Tudo bem. Então, a pintura acima é niilista: busca o aniquilamento da condição humana pela recusa em ater-se à representação de sua figura, relevando apenas o ser. É uma citação direta a 4’33” de John Cage em sua tensão pós-apocalíptica surgida depois da explosão da primeira bomba atômica.

    – Uau!

    Obrigado, obrigado. Não é difícil, só requer que você pare de dançar pagode e vá ler um pouco. E nem é preciso entender o que lê, apenas saber pegar umas palavras e enumerar. Tenho certeza de que uma geração inteira de críticos e curadores foi feita em cima disso, essas bestas.

    Pensando bem há um conceito sim, talvez a base de quase toda a arte moderna: o tédio, que se manifesta infinitamente nesses trabalhos. O artista conceitual deve ser uma pessoa profundamente entediada que se resignou a isso.

    —-

    Arthur Danto disse que chegamos ao fim da história da arte. Na verdade, o que ele quis dizer é que não existem mais movimentos, ou “ismos”, como existia antigamente: impressionismo, cubismo, fauvismo e por aí vai. Eu faço uma vênia e discordo respeitosamente. Vivemos um ismo, sim, que começou logo após a Pop Art. Chamo carinhosamente de Vulgarismo ou Banalismo, e é essencialmente um Dadaísmo apático e entediado que pega tampinhas de garrafa e as cola na parede da galeria.

    —-

    E por quê precisamos de texto afinal? A boa arte devia ser mais uma apreciação do que criada apenas para sustentar um discurso. Aliás, se sua obra precisa de um discurso para ser vista você já fracassou. Pegue seu quadro e use-o para assustar criancinhas no halloween.

    – Eu sou a inconsciência coletiva da luta de classes! Waaaaaaaah!

    – Manhêêêêêêêêêêê! Faz ele parar!

    – Calma filho, é só um artista plástico.

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    Como assim, que sou eu para falar desse jeito? Sou rei de Nihitélia, nascido no Renascimento e criado à base de Toddynho. Kneel before Zod!

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    Para finalizar, um pouco de coisas que não são tediosas:
    Ray Caesar
    Mel Kadel
    Leonardo
    Burnout Paradise Remastered

    * Tá, a imagem na verdade é só um JPG em branco. Clique aqui para ver o quadro na galeria.

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    A Continental GT 650 da Royal Enfield é uma custom que faz curva

    Para explicar melhor: sabe aquelas Harleys 883 que algumas oficinas pegam para customizar e transformar em cafe racers? Estou falando dessa moto aqui:

    Iron 883

    Que depois de muitas semanas ou até meses de trabalho em alterações e adaptações fazem ela virar isso aqui:

    Iron 883, pós cirurgia

    Pois é. A Continental GT 650 é como se fizessem isso, mas de fábrica:

    Essa é a minha, vulgo Elsa

    A Royal Enfield aí da foto sai da concessionária por pouco mais de 27 mil zero km, menos se mudar a cor e tirar os acessórios. Comparado com o preço só da Iron, que vai pra mais de 40 mil pelada, a moto da Royal Enfield sai bem mais em conta para quem curte o visual cafe racer. Olha que maravilha, você pode ter o mesmo desconforto causado pelas vibrações do motor, e sofrer com a falta de potência, por menos da metade do preço!

    Yep, você leu certo. Uma coisa que a GT não tem é potência, mesmo sendo uma 650. Aliás, quando falo que ela é uma custom que faz curva, é porque ela é isso mesmo. O motor me lembra demais o da Dragstar 650 que eu tive: bom torque em baixas rotações, e nenhuma final – ela pega no máximo 160 km/h em terreno plano. Aliás, ela roda bem melhor em baixas rotações, ficando entre 2 e 3 mil, e batendo nas 3 mil RPM já a 80 km/h na sexta marcha.

    Tem também duas outras coisas que fazem dela muito parecida com minha antiga custom. A primeira é o fato do motor ser refrigerado a ar e óleo. Ou seja, ela esquenta, e o bafo vem sempre que você para em algum sinal, acompanhado daquele leve perfume de óleo de motor.

    A segunda são as vibrações. Não chega a ser tão ruim quanto uma Harley, mas existem, e depois de meia hora as mão começam a ficar dormentes. Uma forma que encontrei de amenizar o problema foi colocar aquela fita de guidão de bicicleta nas manoplas. O visual ficou legal, e ela absorve uma boa parte da tremedeira. Mesmo assim, para passeios mais longos vale parar a cada 30 ou 40 minutos para esticar o corpo e fazer o sangue circular de novo nos dedos.

    Então… É uma moto ruim considerando tudo? Nope. Não mesmo, se você entender o que ela é e o que ela não é. Ela não é uma moto esportiva, não foi feita para grandes velocidades nem para competir com as naked quatro cilindros da família japonesa (Honda/Suzuki/Kawasaki/Yamaha). Também não tem grandes avanços tecnológicos como controle de tração ou modos de pilotagem.

    Mas o que ela é, ela é muito bem. Ela é uma moto custom (ou cruiser como chamam lá fora), mas uma moto custom prática. O entre-eixos curto e os pedais elevados dão uma agilidade que as Harleys da vida não tem. A segurança que ela passa ao entrar numa curva é incrível, e a suspensão passa por cima de buracos como se não houvesse nada ali. Já o motor, apesar de fraco se comparado com as naked japonesas, bebe pouco e faz entre 26 a 30 km/L. Em tempos de gasolina a 6 reais o litro, como não amar isso?

    E caramba, olha pra ela:

    Olha!

    Além de ser ótima de pilotar ela é linda. É o tipo de moto que agrada na reta, agrada nas curvas, e quando você desce dela ainda precisa dar uma olhada pra trás e curtir o visual. Vocês podem até gostar de moto parecida com jet ski, mas eu sou um véio paia que gosta de moto com cara de moto, e nisso a GT ganha de todas as outras.

    Agora dá licença que o céu tá limpo aqui na Asa Sul e eu preciso ir no fim do Lago Norte comprar pão.

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    É mais simples do que você pensa

    Pare um segundo. Pense em Picasso, Leonardo, Chagall, Turner. Por que se comparar a um deles (ou, pior, querer ser melhor que eles) é algo que beira o herético? Só porque o nome desses artistas foi carregado por décadas ou séculos? Por que é feio se achar melhor que Lichtenstein, mas se eu disser o mesmo das figuras egípcias ninguém fala nada?

    Eu me comparo o tempo todo a Francis Bacon, Ralph Steadman e HR Giger. Não quero ser igual, quero ser melhor do que eles. Querer ser melhor que seus ídolos deveria ser a ambição de qualquer criatura que se digne a chamar de artista, seja ela pintor, escultor, desenhista ou sei lá o quê. Mais, devia ser um requisito mínimo exigido de qualquer aspirante mais sério em qualquer área de atuação. O aluno que quisesse desenhar seria perguntado pelo professor sobre suas ambições, e se respondesse “sei não, é porque arte é uma terapia, né?” levaria um tapão lambido na nuca e um beliscão nos mamilos.

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    Por quê tudo isso? Porque desenhar não é só fazer rabiscos no papel enquanto você fala no telefone. Não é só seguir uma apostila. Não é fazer quadrinhos para ser famoso. Não é ganhar qualquer tipo de fama. Não há utilidade prática. Desenhar não serve para nada. Uma ilustração, um infográfico, uma propaganda, qualquer coisa feita por encomenda ou não vai ser vista e esquecida, como tantas outras. Você é só mais um no meio de tantos. Um floco de neve único como todos os outros.

    Veja esse desenho:

     

    Essa mão é um pedaço em A3 de um projeto pessoal muito maior, que pretende chegar a um mosaico de dois metros de altura por um e meio de largura. Levei três horas para chegar a algo que eu achasse remotamente satisfatório, só nessa mão. Foram três horas em cima de um banquinho de madeira desconfortável, em uma mesa apertada cheia de canetas técnicas e esboços. Três horas. E para quê? Para uma mão que ninguém vai ver. Para um projeto que ninguém se importa. Ninguém, a não ser eu.

    Se eu continuaria a fazer o que faço mesmo sabendo que tudo ficaria enfiado em uma gaveta?

    Sim. Sem dúvida. Porque isso é como uma maldição. Eu preciso desenhar porque, se não fizer, eu vou morrer. Talvez não fisicamente, mas alguma coisa dentro mim vai. Se parar, aquele pedacinho minúsculo ao lado do estômago que se recusa a calar a boca some, deixando um buraco. Ele é um tipo de esquizofrenia, uma coceira sem fim, uma doença que só pode ser tratada com algum tipo de produção. No meu caso, desenho.

    No seu, qualquer coisa que você goste de fazer mas talvez tenha vergonha ou medo de aceitar. Porque de repente vêm as obrigações e a necessidade de trabalhar e os estudos e a família e isso parece uma bobagem que você passa a ignorar. A coceira grita, você finge que não ouve. Ela agoniza, você olha para o lado. E de repente a voz some para sempre e você estará no seu leito de morte se sentindo vazio e se perguntando para onde o tempo foi.

    Você sente isso e sabe como é. Nós precisamos criar. Eu e você. Não conseguimos apenas sentar e boiar pela vida. Alguma coisa precisa ser feita. Um desenho. Uma cadeira. Uma solda. Uma viagem. Uma descoberta. Chamamos essas coisas de hobby, mas é mais do que um hobby. É mais do que um passatempo. É uma vontade de montar algo, qualquer coisa, pelo puro desejo de vencer um desafio colocado por você mesmo, e poder parar e olhar e dizer “eu fiz isso”. Não pela glória ou reconhecimento dos outros. É mais parecido com o sentimento de saciedade que se tem depois de comer. É fisiológico. E vai acontecer sempre, até o fim da vida.

    São artistas aqueles que se recusam a lutar contra sim mesmo para não perderem um pedaço de sua alma. E isso inclui você.

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    Revisitando a Renascença

     

    Pintado por Piero della Francesca, o afresco registra o momento onde um anjo e uma mulher equilibrando um prato na cabeça olham para um pilar pouco antes de o empurrarem e saírem correndo, deixando para trás os destroços da construção. Seu João, no alto, tenta diplomaticamente demover os dois da idéia dizendo “Eieiei mexe aí não, ô!”, em uma vã tentativa de salvar seu trabalho de alvenaria.

    Intitulada “Agora a casa cai”, a obra tem 3,29 por 1,93 metros e encontra-se na cidade de Arezzo, Itália.

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    Sobre a inerente superioridade das artes visuais

    Tenho certeza que vários já pensaram nisso, e não tenho medo de apontar a pintura, a escultura e o desenho como formas superiores e mais humanas de arte, pelo simples fato de todas respeitarem a individualidade do espectador. Você vê quando quer, e basta um virar de rosto para apagar a visão daquela pintura brega de um cavalo no pasto.

    Já a música não respeita barreiras: ela destroça pessoas com a mesma facilidade que as empolga. Não adianta, aquele axé vai encontrar um caminho da caixa de som ao seu ouvido atravessando o ar, dois andares, as janelas, a parede, a porta, o travesseiro e o tampão de borracha que você tenta desesperadamente interpor na busca do silêncio.

    Do mesmo modo o cinema, a televisão e a videoarte. Por precisarem do som para funcionar (nem tanto para a videoarte) ficam tão más quanto a música, e muito mais cruéis nas mãos de pessoas (e uso essa palavra com certa liberdade poética) que precisam mostrar o novo suporte do meio: um Home Theater/Microsystem da Aiwa/Pioneer/CCE/Sharp com 300 GigaWatts de potência. Essas criaturas pegaram a idéia do “se não sabe fazer bem, faça grande” e deram um novo sentido a ela.

    A superioridade social da pintura é óbvia. Muitos já gritaram “Abaixo o som aí, ô”. Ninguém jamais disse “larga esse pincel aí, ô, tenho que trabalhar amanhã”. Imagine pessoas se contorcendo na cama porque o vizinho aplicou pela terceira vez o filtro Clouds do Photoshop. Pessoas na biblioteca irritadas porque a atendente acabou de comprar uma tela abstrata vendida no shopping por cem reais e deixou ela no carro. Olhos de visitas sangrando porque elas entraram na sala e viram aquele poster do Salvador Dali sobre o sofá. Não acontece, não acontece.