contos e estórias,  reflexões

A letter to Elise

São 19h30, e acabei de fechar a última caixa de livros. Os gatos estão dormindo e a casa está toda desmontada, pronta para a mudança. No celular, a Lis diz que também está pronta e que empacotou tudo no apê dela. E no canto de casa a voz na minha cabeça, que se manifesta agora na forma da Gillian Anderson, está ali de braços cruzados e olhando para a janela. Ela está injuriada.

Voz Na Minha Cabeça: Isso não vai dar certo.

– Eu sei.

VNMC: Sabe mesmo? Porque você tá sorrindo. Não parece ser uma atitude de quem sabe o que faz.

– …

VNMC: E você acabou de montar a casa. E já desmontou tudo de novo.

– Um-hum.

VNMC: E agora vai cair nessa de novo? já nao chega o que aconteceu? E se der tudo errado?

– E se não der?

VNMC: VOCÊ NÃO SABE!

– Nem você.

VNMC:

– Escuta, eu quero fazer isso. Porque faz tempo que não me sentia bem assim sabe?

VNMC:

– E por mais que eu goste de passar o tempo comigo mesmo, a verdade é que eu não sei o que fazer sozinho… E ela me incentiva a ser uma versão melhor de mim mesmo.

VNMC: …eu também te incentivava…

– Incentivava sim… Mas não como antes. Não mais. Você sabe disso.

VNMC:

– Eu não escrevo mais. Não desenho. Nem toco mais guitarra. Só chego, sento e assisto tevê. E quando a gente senta para tentar fazer alguma coisa – qualquer coisa – nada sai. Fica tudo preso aí, com você.

VNMC: …é que não parecia bom o bastante…

– Nunca vai ser bom o bastante… E a gente fica nesse impasse. Eu quero seguir em frente.

VNMC: …tá…

– Mas eu ainda preciso de você. Só não como a gente se acostumou a ficar.

VNMC: Como então?

– Você sabe como.

VNMC: Woody?

– Woody.

VNMC:

– Eu preciso daquela ingenuidade de volta. É mais difícil aos quarenta e tantos anos, mas era mais divertido antes. Aquele sentimento de descoberta. A vontade de criar sem medo do que os outros vão dizer. A vontade de fazer por fazer.

VNMC:

– E agora eu encontrei alguém com o mesmo sentimento que eu tinha antes. Que me espelha nisso tudo… E que tá me tirando desse buraco que eu cavei.

VNMC: …isso é verdade…

– Viu? Eu preciso disso…

VNMC: Tá… Foi bom estar por aqui enquanto pude…

– Você vai continuar aqui. Só que agora, mais como era antes.

Ela se afasta para um canto, e acena com a mão se despedindo. Um flash amarelo engole a sala por alguns segundos, e quando a luz diminui vejo aquela figurinha familiar de muitos e muitos anos atrás.

VNMC: iiIiiIiIIiiiiiIIIIIiiiiiiIiii

– É, continuo sem entender você direito.

E sento no sofá rindo, como se alguma coisa tivesse voltado ao lugar. Algum pedacinho caído que foi encaixado de volta e que trouxe um grande alívio, depois de anos caminhando como se tivesse um prego encostado em minhas costelas.

São 21h30. Hora de dormir, amanhã vai ser um dia cheio. Mal posso esperar.