É mais simples do que você pensa

Pare um segundo. Pense em Picasso, Leonardo, Chagall, Turner. Por que se comparar a um deles (ou, pior, querer ser melhor que eles) é algo que beira o herético? Só porque o nome desses artistas foi carregado por décadas ou séculos? Por que é feio se achar melhor que Lichtenstein, mas se eu disser o mesmo das figuras egípcias ninguém fala nada?

Eu me comparo o tempo todo a Francis Bacon, Ralph Steadman e HR Giger. Não quero ser igual, quero ser melhor do que eles. Querer ser melhor que seus ídolos deveria ser a ambição de qualquer criatura que se digne a chamar de artista, seja ela pintor, escultor, desenhista ou sei lá o quê. Mais, devia ser um requisito mínimo exigido de qualquer aspirante mais sério em qualquer área de atuação. O aluno que quisesse desenhar seria perguntado pelo professor sobre suas ambições, e se respondesse “sei não, é porque arte é uma terapia, né?” levaria um tapão lambido na nuca e um beliscão nos mamilos.

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Por quê tudo isso? Porque desenhar não é só fazer rabiscos no papel enquanto você fala no telefone. Não é só seguir uma apostila. Não é fazer quadrinhos para ser famoso. Não é ganhar qualquer tipo de fama. Não há utilidade prática. Desenhar não serve para nada. Uma ilustração, um infográfico, uma propaganda, qualquer coisa feita por encomenda ou não vai ser vista e esquecida, como tantas outras. Você é só mais um no meio de tantos. Um floco de neve único como todos os outros.

Veja esse desenho:

 

Essa mão é um pedaço em A3 de um projeto pessoal muito maior, que pretende chegar a um mosaico de dois metros de altura por um e meio de largura. Levei três horas para chegar a algo que eu achasse remotamente satisfatório, só nessa mão. Foram três horas em cima de um banquinho de madeira desconfortável, em uma mesa apertada cheia de canetas técnicas e esboços. Três horas. E para quê? Para uma mão que ninguém vai ver. Para um projeto que ninguém se importa. Ninguém, a não ser eu.

Se eu continuaria a fazer o que faço mesmo sabendo que tudo ficaria enfiado em uma gaveta?

Sim. Sem dúvida. Porque isso é como uma maldição. Eu preciso desenhar porque, se não fizer, eu vou morrer. Talvez não fisicamente, mas alguma coisa dentro mim vai. Se parar, aquele pedacinho minúsculo ao lado do estômago que se recusa a calar a boca some, deixando um buraco. Ele é um tipo de esquizofrenia, uma coceira sem fim, uma doença que só pode ser tratada com algum tipo de produção. No meu caso, desenho.

No seu, qualquer coisa que você goste de fazer mas talvez tenha vergonha ou medo de aceitar. Porque de repente vêm as obrigações e a necessidade de trabalhar e os estudos e a família e isso parece uma bobagem que você passa a ignorar. A coceira grita, você finge que não ouve. Ela agoniza, você olha para o lado. E de repente a voz some para sempre e você estará no seu leito de morte se sentindo vazio e se perguntando para onde o tempo foi.

Você sente isso e sabe como é. Nós precisamos criar. Eu e você. Não conseguimos apenas sentar e boiar pela vida. Alguma coisa precisa ser feita. Um desenho. Uma cadeira. Uma solda. Uma viagem. Uma descoberta. Chamamos essas coisas de hobby, mas é mais do que um hobby. É mais do que um passatempo. É uma vontade de montar algo, qualquer coisa, pelo puro desejo de vencer um desafio colocado por você mesmo, e poder parar e olhar e dizer “eu fiz isso”. Não pela glória ou reconhecimento dos outros. É mais parecido com o sentimento de saciedade que se tem depois de comer. É fisiológico. E vai acontecer sempre, até o fim da vida.

São artistas aqueles que se recusam a lutar contra sim mesmo para não perderem um pedaço de sua alma. E isso inclui você.

Revisitando a Renascença

 

Pintado por Piero della Francesca, o afresco registra o momento onde um anjo e uma mulher equilibrando um prato na cabeça olham para um pilar pouco antes de o empurrarem e saírem correndo, deixando para trás os destroços da construção. Seu João, no alto, tenta diplomaticamente demover os dois da idéia dizendo “Eieiei mexe aí não, ô!”, em uma vã tentativa de salvar seu trabalho de alvenaria.

Intitulada “Agora a casa cai”, a obra tem 3,29 por 1,93 metros e encontra-se na cidade de Arezzo, Itália.

Sobre a inerente superioridade das artes visuais

Tenho certeza que vários já pensaram nisso, e não tenho medo de apontar a pintura, a escultura e o desenho como formas superiores e mais humanas de arte, pelo simples fato de todas respeitarem a individualidade do espectador. Você vê quando quer, e basta um virar de rosto para apagar a visão daquela pintura brega de um cavalo no pasto.

Já a música não respeita barreiras: ela destroça pessoas com a mesma facilidade que as empolga. Não adianta, aquele axé vai encontrar um caminho da caixa de som ao seu ouvido atravessando o ar, dois andares, as janelas, a parede, a porta, o travesseiro e o tampão de borracha que você tenta desesperadamente interpor na busca do silêncio.

Do mesmo modo o cinema, a televisão e a videoarte. Por precisarem do som para funcionar (nem tanto para a videoarte) ficam tão más quanto a música, e muito mais cruéis nas mãos de pessoas (e uso essa palavra com certa liberdade poética) que precisam mostrar o novo suporte do meio: um Home Theater/Microsystem da Aiwa/Pioneer/CCE/Sharp com 300 GigaWatts de potência. Essas criaturas pegaram a idéia do “se não sabe fazer bem, faça grande” e deram um novo sentido a ela.

A superioridade social da pintura é óbvia. Muitos já gritaram “Abaixo o som aí, ô”. Ninguém jamais disse “larga esse pincel aí, ô, tenho que trabalhar amanhã”. Imagine pessoas se contorcendo na cama porque o vizinho aplicou pela terceira vez o filtro Clouds do Photoshop. Pessoas na biblioteca irritadas porque a atendente acabou de comprar uma tela abstrata vendida no shopping por cem reais e deixou ela no carro. Olhos de visitas sangrando porque elas entraram na sala e viram aquele poster do Salvador Dali sobre o sofá. Não acontece, não acontece.