• reflexões

    Lembrete amigável

    Não é porque eu escrevo sobre alguma coisa que eu estou vivendo aquela coisa, nem porque eu postei algo nas redes sociais que tudo na minha vida se resume àquilo, nem o fato de alguém dar likes significar que eu vivo com essa pessoa 24 horas por dia. Essa distância e falta de interação ao vivo que a internet causa leva as pessoas a escrutinizar a areia da pulga de informação que pegam e criar mil e uma histórias a partir dali, tirando elas mesmas todas as conclusões possíveis e imagináveis, e, pior, ficando com raiva ou medo da própria fantasia que criaram. É por essas e outras que eu me arrependo de sequer mexer em redes sociais, todo mundo surta por bobagem.

    Quer saber como estou e o que faço da vida? Liga ou manda mensagem. Ou entra aqui e me chama se não tiver meu número nem e-mail. É mais legal e vai estressar menos, pode confiar.

  • reflexões

    Ambicioso sim, que que tem?

    Você tem que ser ambicioso. Todos os grandes são ambiciosos. Ambição é bom, deixa o cara se dedicar à música que pretende ser a melhor de sua vida. Ou ao desenho que vai revolucionar os desenhos. Na pior das hipóteses ele não consegue nada disso e ganha experiência. Ou arruina sua vida e a da família por gerações. Detalhes, detalhes.

    É comum para artistas ou esportistas ou qualquer pessoa mais dedicada ser um pouquinho só ambicioso. Da Vinci era o mais ambicioso de todos, estudou muito e criou várias máquinas que revolucionariam o mundo se fossem construídas. Ou se funcionassem. Tipo aquele helicóptero, que parece um macarrão fusili.

    Acho que foi Kerouac que disse algo como “aqueles que querem mudar o mundo são aqueles que o mudam”. É um bom modo de se viver, achar que pode mudar o mundo. Faz você acordar mais disposto pela manhã e a se dedicar com mais felicidade ao trabalho. E acho que quem não é ambicioso não tem objetivo na vida, pensa que o que faz já está bom demais, e desdenha do maluco que passa quatro horas por dia em cima de uma mesa de desenho treinando o traço em vez de assistir o Domingão.

    Então é isso, seja ambicioso. É bom para a pele e fortalece os folículos capilares.

  • contos e estórias

    How to disappear completely

    14h30 em um escritório no centro de Brasília. A Voz na Minha Cabeça, que estranhamente soa como a Gillian Anderson, não para de resmungar.

    Voz na Minha Cabeça: Mmmmm… Grmrmrm. Nhrrarrrrrrrghnnnnn…

    – Afe. Tá, chega de brincadeira. Desembucha.

    VnMC: Aquele lance da timidez.

    – Ah, o velho problema. Você não é a única a sofrer disso, sabe?

    VnMC: blahblahblah… Se começar com estatísticas eu caio no sono.

    – Na verdade 70% da população mundial sofre de alg…

    De repente eu caio no chão, para a perplexidade dos colegas de trabalho. Quinze minutos depois eu consigo acordar e voltar à mesa, após tranquilizar todos.

    – Isso doeu.

    VnMC: Doeu mesmo. Você tinha que me bater na mesa?

    – MAS É VOCÊ QUE… Deixa, não vou entrar no mérito da questão… Onde estávamos, afinal?

    VnMC: Aquele problema.

    – Ah, sim. Não é nada de extraordinário, como eu tentava dizer. Todos temos isso em algum momento, por medo do que pode acontecer – ou do que pode não acontecer. Medo do desconhecido, talvez, mas algum medo.

    VnMC: Que timidez é medo eu sei, cáspite. Agora como resolver isso é que são elas.

    – Fecha os olhos e pula. Deixa pra pensar no que aconteceu depois.

    VnMC: Hummmm…

    – …o quê?

    VnMC: Fechar os olhos e pular, é?

    – Não, peraí sua louca!

    Corta para fora do prédio, no pátio. Um homem cruza a esplanada correndo e gritando “Queeeee saaaaaacooooo!”, para pular a toda velocidade no espelho d´água. Após vários chutes e socos no ar, e um banho na cara, eu recobro os sentidos para notar a dezena de curiosos que me observa.

    VnMC: Opa.

    Pessoa 1: Deve ser uma performance, veja a máscara dele!

    Sim, máscara. Rosto pintado de branco e preto, sei lá como.

    Pessoa 2: Nossa, que legal!

    Pessoa 3 metida a intelectual: É de uma expressividade interessante, reflete bem a angústia que passamos por esse momento.

    VnMC: Ih, caramba. E agora?

    – Er…

    VnMC: Vai, fala alguma coisa!

    – É a angústia! A raiva! A incerteza de não vermos o futuro! E a vontade de esfriar a cabeça em um simples espelho d´água! Solto meu grito hoje, não em um teatro, mas na frente de vocês, para lembrá-los: somos todos humanos!

    Uma explosão de palmas e assovios ecoa no ar. Pessoas gritam elogios, mulheres desmaiam emocionadas e outras jogam rosas, tiradas sabe Deus de onde, enquanto eu faço uma reverência e saio correndo pro carro.

    Pessoa 4Adorable!

    Pessoa 5Fantastique!

    Pessoas: Mais um! Mais um!

    VnMC: É, parece que tudo que disse fez algum sentido. Boa saída, garoto!

    – Você me paga.


  • contos e estórias

    Woodstock

    Sabe aquela sensação de estar apenas passando pela vida? De não fazer nada de relevante, de se incomodar por querer criar algo que seja lembrado mas não poder devido à temida realidade?

    Isso me incomoda enquanto encaro um dia de trabalho normal. Fico sentado diante de uma pilha de documentos que esperam a vez para serem resumidos e inseridos no banco de dados. É verdade que existem pessoas em situações muito piores e que não deveria me queixar, mas me queixo. Mais um dia, mais um dia, mais um dia. Ou quase.

    Naquele dia foi diferente. Percebi atrás do meu braço um monstrinho amarelo que me cutucava. Dizia ser parte de mim, e repetia uma mesma frase.

    Quero escrever, quero escrever, quero falar, quero viajar, quero voar!

    Fica quieto, penso, ainda tem muito trabalho pela frente, e dou um tapa que o joga para o outro lado da mesa. Mas não adianta, ele não se abala. Na verdade sequer sente a agressão. Apenas fica rondando, à espreita e na espera do menor desvio de atenção. Basta menos de um segundo, uma pequena olhada para o lado é suficiente.

    Pára com isso, pensa, escreve, viaja na maionese, eu sei que você quer!

    Não posso, não posso, a empresa, a empresa, o trabalho, o trabalho. Contas e dinheiro, dinheiro e contas, estabilidade e casa, dinheiro, dinheiro, dinheiro. Tenho que trabalhar.

    Não é o que quer, eu sei! Vem comigo ao menos por um momento, depois você volta!

    E me rendo. Subitamente me despeço da pilha de papéis, computadores e colegas. Vou com o monstrinho, e não tenho mais o monitor à minha frente. O que é isso, uma paisagem impressionista? Ondas de verde e laranja me envolvem. Caminho pelo azul e tento me desvincilhar do vermelho enquanto ouço o monstrinho falar, verbalizando suas idéias provocantes, curiosas e criativas. Woody, o apelido que me vem à mente para ele, me incita com um discurso onde diz que posso ter muito mais se largar isso e embarcar na jornada em sua companhia. Encararia um processo de libertação onde dinheiro é mero detalhe e, com sorte, mera consequência da viagem.

    Difícil, eu sei! Mas olhe ao seu redor. Olhe ao seu redor!

    Eu olho e, Deus, que visão magnífica. Ondas de grafite em um fundo branco que se fundem com a paisagem urbana em tons de cinza.

    Experimente!

    Ergo a mão esquerda e a conduzo levemente de cima para baixo. O horizonte muda. O horizonte muda! Ambas as mãos, agora, se agitam em frenesi e reconfiguram a paisagem ao meu bel prazer. E não contenho o riso, ah, posso mais do que imaginava!

    Percebe? Percebe o que acontece? Agora chega, é hora de voltar.

    Agora não, Woody, só mais um pouco! Só mais um pouco! Mas o pouco se vai, e novamente tenho a tela na minha frente. Os documentos repousam ao meu lado. Não vejo mais o monstrinho.

    Faz alguns dias que ele se foi. Me pergunto, todos os dias, onde teria se escondido. Se faz parte de mim, como diz ser, deve estar me esperando. Esperando o dia em que romperei os grilhões, o dia no qual farei o inesperado, o dia em que tudo mudará. Esperando ansioso pela decisão que hesito em tomar.

    Um dia crio coragem.

  • ideias

    Propagandas de xampu

    Mulheres de cabelos longo sorridentes no café da manhã. Vão de um lado a outro com as madeixas reluzentes, espalhando-as sobre os ombros com as mãos enquanto esperam a chaleira apitar. Servem o café jogando a cabeça de um lado para o outro, o cabelo voando sobre a manteiga, os pães.

    – Mããããããããnhêêêêêêê!!!!!!!!! Tem cabelo no meu cereaaaaaaaalll!

    – Sim, mas é um cabelo hidratado e sem pontas!

    Hmmmmrmrmrrrrrmgggggrmmmm… Não.

  • contos e estórias

    Memento

    Sete da noite, um apartamento em Brasília. Estou deitado no sofá e ouvindo Cherry-coloured Funk do Cocteau Twins quando a voz na minha cabeça, que estranhamente soa como a Gillian Anderson, resolve me incomodar.

    Voz na Minha Cabeça: So, what we have here?

    – …

    VnMC: What? Why don’t you talk to me? Is something wrong?

    – Por quê cazzo você me pergunta em inglês?

    VnMC: Por que the hell você me xinga em italiano?

    – Perguntei primeiro.

    VnMC: Ah, a cláusula da antecipação. Funciona muito bem quando criança, pena que quando adultos ela não tem muito sentido.

    – …e o que você quer dizer com isso?

    VnMC: Que estou em sua cabeça, e por isso no comando! 

    – Como você consegue sorrir sendo apenas uma voz?

    VnMC: Mistérios da mente, meu caro. Como fazer você esquecer o que me acabou de perguntar.

    – Você não faria isso!

    VnMC: Já fiz.

    – Fez o quê?

    VnMC: Hihihi.

  • ideias

    Close to madness

    Volta e meia eu ouvia dois colegas de trabalho conversando em inglês. Estranhamente sentia uma vontade absurda de levantar com o dedo indicador em riste, um livro seguro pela outra mão próximo ao peito, e gritar “The BOOK is on the table! THE TABLE!”. Isso com uma entonação grave e dramática na voz, como quem profere palavras de grande sabedoria.