• ruminações

    O que é Arte, VI

    Arte é mais do que uma mera expressão de emoções e intenções. Arte é uma exploração de fronteiras. Ela é uma análise do que é aceitável no zeitgeist vigente, e um esforço para reforçar ou expandir essas fronteiras.

  • ruminações

    Não tem mais volta

    escrevi sobre as imagens geradas por inteligência artificial, mas vale falar de novo. E dessa vez, direto para os artistas.

    A real é o seguinte: AI tá aí. Ponto. Não importam seus sentimentos. Não interessa o quanto você estudou e se dedicou. Nesse momento, se você é artista por hobby sua vida não muda em absolutamente nada e você pode continuar desenhando e pintando como sempre fez. Agora, se a sua vida literalmente depende disso, de pagar o aluguel e botar comida na mesa, você tem duas opções:

    1. Aprender a usar e colocar no seu workflow;
    2. Mudar de carreira.

    É isso. Principalmente se você não é um artista já estabelecido e reconhecido, com sua legião de seguidores fiéis. Vai doer de um jeito ou de outro. Você, que estava confortável com o Photoshop e com sua coleção de pincéis, vai ter que começar do zero para aprender a usar uma nova ferramenta, ou correr o risco de perder espaço por defender um purismo besta, perdendo clientes por não conseguir acompanhar mais os que entraram no jogo. Do mesmo jeito que a pintura digital mudou os paradigmas de criação, as imagens geradas por AI estão começando a mudar o mercado de arte. Você pode aproveitar que a onda ainda está crescendo e começar a surfar em cima dela, antes de todo mundo. Ou você pode morrer pelo caminho.

    Eu sei que você gastou horas e mais horas aprendendo a desenhar, eu também fiz isso. Mas o mundo não se importa, só você.

  • galeria

    Olhai por nós

    Eu sou ateu, mas acendo uma vela todos dias para a Nossa Senhora do Home Office na esperança de receber essa graça. Quando ela se manifesta é uma coisa linda de se ver.

  • ruminações

    O reconhecimento do âmago no Umano H-inumano

    Já teve paciência para ler um texto de exposição? Eu já. Por várias vezes me perguntei se aquele texto era mesmo daquela exposição. Já entrei na galeria todo animado atrás da coleção onde eu devia experenciar (sic) um retorno ao primitivismo humano, ao âmago do meu ser conflitando com minha infância, mas só vi umas latas de tinta riscadas por pregos, uns pedaços de madeira sujos de guache e uns soldadinhos de plástico colados no chão. Já pensei em abrir processo por propaganda enganosa mas só de pensar em ter que ouvir mais retórica do sujeito de boina e cavanhaque tive calafrios. Achei melhor fazer uma retirada honrosa e guardar o folder na lixeira.

    Repare como a qualidade do texto acaba sendo inversamente proporcional à qualidade da obra. Ou nem isso: a exposição pode até ser boa mas o texto promete tanto uma reação pluri-extática transcedental que fico decepcionado por sair da galeria sem meus orgasmos.

    O mesmo para justificativas de designers ao apresentarem suas novas marcas. Aqui o desenho remete aos valores fundamentais da empresa como seriedade e solidez, e passa um sentimento de alegria e receptividade tântrica exponencial a cada olhada. E ao olhar para o papel tudo que você consegue ver são dois traços azuis e uma curva suspeitamente parecida com a marca da Nike.

    Há alguma vergonha em admitir que a arte – e porque não o design – se dá às vezes por felicidade do acaso? Por um conhecimento acumulado por anos que simplesmente saiu na forma de uma obra de arte ou de uma marca interessante, e que você não tem a menor idéia de como isso foi feito mas apenas sabe que funciona? Parece que sim, porque as explicações são não apenas mais presentes e mais constantes, mas mais bizarras e esotéricas. Não basta ser bom, tem que parecer bom, como se cada linha fosse cuidadosamente pensada, cada rabisco estafantemente redesenhado, tudo para defender o valor do trabalho daquela famigerada frase que diz “ah, até eu faço”, mostrando as teorias de Arnheim/Balzac/Rubinho Barrichello para justificar o vidro de talco de dois metros de altura feito com celofane.

    Mas dada a qualidade (leia picaretagem) de uma leva enorme de artistas e designers, a quem vamos culpar?

  • achei na internet

    Dois artistas cinéticos

    Theo Jansen, um alemão que faz criaturas movidas a vento com tubos e garrafas de plástico. A visão deles em uma praia deve ser umas das melhores experiências da vida, são impressionantes. O site do artista está aqui, e neste link há um vídeo para sua apresentação na conferência TED. No YouTube há uma série de vídeos com as criaturas em funcionamento.

    Reuben Margolin é um norte-americano fascinado por ondas. Suas esculturas usam madeira, metal e outros materiais para recriar movimentos da natureza em trabalhos muitos delicados. Seu site está aqui, e no BoingBoing há um vídeo com suas obras.

  • ruminações

    Desenhos, III

    Dave McKean disse uma vez que não há sentido em fazer com que um material seja o que ele não é; que se o interesse é por um realismo preciso, como pintar um tecido, que se use uma fotografia do tecido então em vez de tentar reproduzir a textura com tinta.

    “Ah, tá bom. Quem diz isso é porque não sabe pintar”, e enfio o pincel no nariz do fulano que fez o favor de babar no meu braço. Pode até ser, afinal existem tantas técnicas e ferramentas diferentes ao alcance da mão que tornam a criação mais fácil, ao alcance de qualquer um. É ruim? Depende. Pode ser quando algumas pessoas começam a se chamar webdesigners por saberem usar o FrontPage da Microsoft, mas mesmo assim apenas se forem sem noção. E… o que mesmo? Ah, e alguém não sabe ou não quer desenhar? Por que não se expressar por colagens? Ou por fotomontagens? Alison Jackson é uma dessas artistas que souberam brincar com isso, sacudindo um pouco essa cultura das celebridades. Veja essa apresentação no TED, uma conferência sobre Tecnologia, Entretenimento e Design, para conhecer um pouco desse trabalho.

    Falo isso porque já estudei desenho acadêmico e técnico e achava tudo muito chato. Sério, para quê desenhar um retrato hiperealista se uma fotografia resolve? Já desenhei sapatos realistas e narizes sombreados e bocas carnudas e olhos brilhantes e rostos completos com tudo isso  e minha reação sempre foi “meh”. Digo, faz bem pro ego mas e daí? O desenho era bonito, realista, identificável, mas e daí? Parecia faltar algo mais. Alma, presença, expressão, não sei. Só sei que via um trabalho burocrático, no sentido de sentar e seguir à risca a cartilha técnica. Pode ser bom como aprendizado, mas viver disso? Obrigado, mas não obrigado.

    Scott McCloud escreveu em seu Desvendando os Quadrinhos que nesse meio um maior realismo torna a imagem mais impessoal e objetificada, menos reconhecível por alguém, enquanto uma imagem mais icônica, simplificada, torna fácil a identificação do leitor com o personagem. Talvez seja isso, não dá para se reconhecer em uma perna de mesa (acho). Mas deve ter mais aí. Acredito que o artista precisa aparecer de algum modo em sua obra, transmitir sua visão pervertida e distorcida e colorida e esquizofrênica e meu-deus-que-viajem-isso-que-pensei-mas-ficou-legal da realidade para trazer algo que tire do dia a dia a pessoa que vê a imagem, levando-a na imaginação para um lugar ou uma sensação ou uma experiência um pouco mais legal. Afinal, para ver banalidade é só olhar para a rua e as ilustrações vetoriais de propaganda.

    Então abandonei esse estudo. Saí do realismo para o abstracionismo, enchendo bordas e mais bordas de caderno com padrões e geometrizações de rostos durante as aulas mais chatas do curso de biologia. Conheci o Paint Shop Pro da JASC bem antes do meu primeiro Mac, e nele aprendi muito do que sei hoje. O Photoshop veio anos depois, seguido pelo Affinity Designer. Porém, mesmo com todo esse conhecimento e esse desprendimento, ficava aquele ranço de “não ser um artista de verdade” por não desenhar mais uma mão com todas as sombras e detalhes. Até um dia ver um quadro de Mondrian e dizer em voz alta, para surpresa de todos ao meu redor:

    -Também não apela, né?

  • ruminações

    Desenhos, II

    Afinal, qual era a segunda palavra?

    Referência.

    Um estalo enorme aconteceu, mas isso foi devido a um mau jeito no braço. Enquanto tentava ignorar a dor, percebi como o poder de copiar ajudaria a criar um personagem: pegue as partes que precisa e as contextualize dentro de suas intenções. “Como assim, Bial?”, você pergunta. Explico. Você precisa de um personagem com mãos na cabeça em meia luz mas não sabe como fica as sombras. Arranje uma câmera e um abajur e tire uma foto de você mesmo na posição. Pronto, basta copiar a foto e seus detalhes. Quer mudar as roupas? Abra uma revista de moda e copie sobre seu personagem os modelos que gostar. Quer criar um monstro? Imagine o conceito, pegue fotos de animais que têm o que você quer e combine os elementos em sua criatura exclusiva. Um peixe transparente pode surgir a partir de uma foto de água viva e outra de um baiacu.

    Olhar. Construir. Copiar.

    Quem diria? Usar referências resolve boa parte dos problemas de criação pois você não precisa adivinhar como uma sombra, por exemplo, funciona. É só montar e copiar. Somada à capacidade de criar associações entre objetos (que comento em outra oportunidade), a técnica permite criação de realidades antes inimagináveis e, paradoxalmente, verossímeis. Quem trabalha com desenho também já conhece esse método de longa data, mas, para este que vos escreve, nem passava pela cabeça antes de levar o tracejado um pouco mais a sério. Treinar ajudou muito, mas foram apenas essas duas palavrinhas em mente, esboço e referência, que realmente mostraram como extravasar as idéias. Fico feliz com o resultado apesar de estar longe do nível desejado, e vejo que agora é tudo questão de tempo investido em treino e muito estudo. Afinal, ainda estou com a sensação de que nem arranhei a superfície do assunto.